CRÍTICA


Seguindo o mote dado por Samuel Beckett, o Teatro da Garagem tem vindo a levar a cabo anualmente o ciclo Try Better. Fail Better com o intuíto de dar visibilidade a novos e emergentes projectos sempre dentro de uma procura de aperfeiçoamento artístico por tentativa e erro.

Este ano o ciclo abriu com Às vezes quase me acontecem coisas boas quando me ponho a falar sozinho de Rui Pina Coelho. Um homem simples do campo na cidade, vê coisas, pensa em coisas e fala sobre elas, conta histórias, palavras que se organizam em sentidos por momentos e que quase são representadas. O actor dá voz e corpo a este homem é Carlos Marques, conseguindo envolver-nos nesta proposta de ouvir histórias que quase são representadas. Em palco, um homem, um gravador que também conta histórias e pouco mais que uma banana é o suficiente para durante o tempo do espectáculo também nós vermos a cidade de fora, como se não a compreendessemos verdadeiramente.
Este espectáculo é um projecto que tem vindo a ser apresentado e reformulado desde uma primeira leitura pública em 2008 até esta apresentação, passando, por exemplo, pela versão mínima proposta em Janeiro de 2009 no “Ciclo Novos Actores ‘09”, promovido pelo São Luiz Teatro Nacional e sobre a qual tive oportuinidade de escrever aqui.
De acordo com os criadores o espectáculo “pretende experimentar o cruzamento entre as linguagens dramática e narrativa, fazendo conviver os recursos específicos da actividade do contador de histórias e do actor.” Parece-me que a evolução do projecto poderia passar, ganhando com isso, pela cada vez maior elaboração das pequenas narrativas como a das hilariantes freiras no autocarro, dando-lhes corpo, uma maior automonomia e construção sem perder a espontaneidade das histórias contadas às pessoas, pessoas que estão ali ao pé e com as quais Carlos Marques cria uma grande cumplicidade.

publica por Ana Campos em http://proponho.blogspot.com/2010/03/as-vezes-quase-me-acontecem-coisas-boas.htm


Em Às Vezes Quase Me Acontecem Coisas Boas, Carlos Marques dá corpo a um homem sozinho que, parado no meio de uma viagem, corporiza as palavras, palavras antigas e sem uso como boa, ou outras que lhe fazem acontecer coisas boas ou coisas más contra as quais nós nada podemos fazer, como a morte de uma puta ucraniana. As palavras aqui são elas próprias construtoras da realidade, do modo como a percepcionamos e consequentemente da nossa reacção à mesma. Carlos Marques constrói perante os nossos olhos um discurso pueril, divertido mas profundamente verdadeiro, tragicamente verdadeiro.

Publicado em www.proponho.blogspot.com por Ana Campos